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Entrevista - Bruno Chausse, Jovem Talento em Ciências da Vida 2015

Autores: Maria Célia Wider

25/09/2015

Bruno ChausseBiólogo, com doutorado em Bioquímica pelo Instituto de Química da USP, Bruno Chausse conquistou o 19º Prêmio Jovem Talento em Ciências da Vida, promovido pela SBBq e pela GE Healthcare Life Sciences, com o trabalho Intermittent Fasting Changes Energetic Metabolism by Induction of Hypothalamic and Redox Modifications.

Bruno foi orientando da professora Alicia Kowaltowski, do CEPID Redoxoma. Nessa entrevista ao site do Redoxoma ele conta um pouco de sua experiência como pesquisador, fala do plano de ser um educador e de sua necessidade de “compreender o que sou, o que somos, como a gente se move nesse ambiente complexo que é o ser humano”.

O que motivou você a estudar Biologia e a fazer o doutorado em Bioquímica?
Sempre me interessei por questões. Desde muito novo sempre foi claro na minha personalidade esse ser questionador. Na época de escolher uma faculdade, mesmo com a imaturidade que temos no ensino médio, eu buscava alternativas que me permitissem ser um questionador e foi aí que me apaixonei por genética. Isso me estimulou a me inscrever no vestibular e entrar para o curso de Biologia [na Universidade Federal da Paraíba]. Durante o curso descobri que a biologia é muito mais que genética, o curso é bem amplo, dá uma visão de mundo interessante, sobretudo no aspecto do questionamento de por que as coisas são assim, como elas acontecem. E, nesse meio, encontrei a Bioquímica, que foi a primeira disciplina que fiz, e depois meu professor virou meu orientador de Iniciação Científica. Aí me apaixonei pela Bioquímica. Nesse meio tempo fui fazer o Curso de Verão em Bioquímica e Biologia Molecular do Departamento de Bioquímica do IQ-USP e conheci como se faz ciência de ponta no país. Quando concluí a graduação, fui procurar um laboratório no IQ para fazer pós, encontrei no site o perfil da Alicia [Kowaltowski] e entrei em contato com ela.

Como foi seu desenvolvimento durante a pós-graduação?
Fui para o Instituto de Química e começamos a desenvolver um projeto. Decidimos trabalhar com dietas intermitentes, que é um dos métodos antienvelhecimento mais estudados no mundo, com a perspectiva de entender por que animais submetidos a essa dieta, apesar de ingerirem uma quantidade grande de alimentos, eram mais magros do que os animais controle, que não estão na dieta. Essa foi a pergunta inicial que motivou todo o desenvolvimento do projeto, que basicamente estava envolvido com questões de metabolismo, de bioenergética e de homeostase energética.

Uma vez no IQ, comecei a despertar para esse universo que é a universidade. Além da parte experimental e do desenvolvimento do projeto em si, tive a oportunidade, por exemplo, de fazer disciplinas com os professores que escreveram os livros que eu estudava. Tudo isso foi importante para desenvolver aquele estudante cru, recém graduado, em um pesquisador. Acho que todo esse desenvolvimento corroborou para que eu pudesse ser selecionado e depois premiado com o Jovem Talento.

Agora estou começando um pós doutorado na Faculdade de Ciências Médicas, na UNICAMP, com o professor Lício Velloso [do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades]. É um laboratório que há um certo tempo tenta entender a gênese da obesidade, quais os mecanismos que distinguem o fenômeno da obesidade. E lá vou trabalhar com a propensão à obesidade, com uma abordagem meio nova para entender por que algumas pessoas são propensas à obesidade e outras, não.

E a obesidade é um problema bastante atual...
A obesidade é um problema instalado e hoje em dia a busca de estratégias para reverter ou prevenir o processo tem sido cada vez maior. E esse tipo de estudo é fundamental, porque, ao entender como os processos ocorrem, pode-se intervir antes deles serem deflagrados. É justamente na compreensão dos mecanismos que a gente pretende trabalhar. E tudo isso em nível hipotalâmico, no controle central. A gente está estudando a expressão de neuropeptídios que controlam o apetite e o peso corporal.

É interessante que comecei em um instituto de ciência básica, onde a gente trabalha com bioquímica e com metabolismo numa abordagem bem bioquímica, e agora parti para um pós-doc que é uma transição entre ciência básica e aplicada, onde vou aplicar todo esse conhecimento básico num fenômeno mais complexo, que é a propensão à obesidade. O que aprendi com meus experimentos, com minhas disciplinas, agora será aplicado num contexto um pouco mais próximo da clínica.

Qual a importância para você de receber o Prêmio Jovem Cientista?
O prêmio foi muito interessante porque sempre fui muito despretensioso, sempre fiz as coisas por gostar de fazer. Mas a gente deve aplicar para esses prêmios. Um prêmio é um reconhecimento direto do nosso esforço, da nossa produção. Às vezes acho que, quando estamos na academia fazendo pós-graduação, somos vistos pela sociedade e pela família um pouco como eternos estudantes, apesar de trabalharmos arduamente. E reconheço que a culpa é nossa também, nós falamos difícil, não nos fazemos compreender. O prêmio é uma das formas de recebermos um feedback, de ter o trabalho reconhecido.

Além do reconhecimento, também recebi um valor em dinheiro e passagens para fazer um curso ou participar de um congresso em qualquer lugar do mundo. Pretendo usar as passagens para viajar para a Alemanha e fazer um curso de sequenciamento de última geração de RNA. Apesar de ainda estar na linha metabólica, vou trabalhar com abordagens novas, que nunca utilizei, e esse curso vai me dar ferramentas para responder novas perguntas.

Como você pensa seu futuro profissional?
Acho que a gente que recebeu tanto investimento, por tanto tempo, da sociedade tem um compromisso de retornar isso de alguma forma. Além desse compromisso, compreendo que nasci para dar aula. Nasci para transmitir conhecimento. Com certeza serei um professor. A vida vai levando a gente um pouco, mas estou me preparando para ser professor universitário. Quero fazer o que fizeram comigo: pegar a pessoa despreparada, com capacidade, mas ainda crua, e transformar em uma pessoa que pensa, que faz suas próprias perguntas e que trabalha da construção do que a gente chama de conhecimento.

O mais interessante da vida acadêmica são as oportunidades que temos de conhecer o mundo de uma forma que outras carreiras não permitem, de ampliar a visão do mundo pela experiência. Há uma troca muito intensa de experiências e a possibilidade de estabelecer colaborações. A vida acadêmica permite conhecer esse universo que é a formação do conhecimento.

Nisso tudo a pesquisa é fundamental, como uma forma de se compreender como as coisas funcionam e poder mudar a vida da sociedade, e também como ponto de estímulo para o desenvolvimento de uma maturidade não apenas intelectual, mas de uma maturidade de vida que a educação traz. Meu plano futuro é ser um educador.

Além da ciência, quais são seus interesses?
Muita coisa me interessa. Hoje em dia consigo traduzir isso numa palavra: comunicação. Umas das coisas que realmente me interessa é a comunicação em diversas esferas, desde as mais formais, como os livros, por exemplo, até as mais abstratas, como as instalações artísticas.

Ultimamente tenho lido bons livros, que ajudam a entender um pouco o que é a humanidade, o que somos e nos ajuda a nos desenvolver como seres humanos. Acho importante compreender o que sou, o que somos, como a gente se move nesse ambiente complexo que é o ser humano.

Agora estou lendo Gente Pobre, do Dostoiévski, e é impressionante como ele trata da adversidade, dos conflito que as diferenças promovem e que são enriquecedores, porque desses conflito surgem as novidades, a gente tem que achar soluções para eles.


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