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Mitocôndrias de C. elegans longevos são mais eficientes em obter energia de lipídios

Autores: Maria Célia Wider

02 jul, 2020
Estudo de pesquisadores do Redoxoma foi publicado no FASEB Journal. Em outro trabalho, grupo traçou perfil lipídico de mutantes de C. elegans deficientes para lipase

Em diversas espécies animais, a restrição alimentar e a infertilidade aumentam a expectativa de vida. Os mecanismos bioquímicos e moleculares envolvidos nesse fenômeno, no entanto, ainda são pouco compreendidos. Mitocôndrias são essenciais para a homeostase celular e a disfunção mitocondrial é uma assinatura do envelhecimento. Para entender o papel da atividade mitocondrial em intervenções que aumentam a longevidade, pesquisadores liderados pela professora Fernanda Marques da Cunha, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e do CEPID Redoxoma, investigaram os efeitos da privação alimentar e da infertilidade na atividade respiratória mitocondrial do nematoide Caenorhabditis elegans. Eles descobriram que ambas as intervenções aumentaram a eficiência com a qual as mitocôndrias utilizam lipídios como substrato respiratório, indicando que a capacidade de oxidar lipídios pode ser determinante para maior longevidade. Os resultados foram publicados no FASEB Journal.

“O C. elegans é um modelo muito usado em estudos sobre envelhecimento, principalmente por geneticistas, que fazem modificações genéticas e verificam se elas interferem no tempo de vida. Nós resolvemos colocar um olhar bioquímico nesse modelo, e, por causa do nosso background, analisar a função mitocondrial. E descobrimos que a atividade mitocondrial é modulada por essas duas intervenções conhecidas por aumentar a longevidade de C. elegans”, disse Fernanda Cunha.

Mitocôndrias de C. elegans longevos são mais eficientes em obter energia de lipídiosOs pesquisadores estudaram C. elegans do tipo selvagem e mutantes não férteis (glp-1). Os vermes foram submetidos à privação total de alimento, situação extrema que aumenta o tempo de vida em até 50% em comparação com animais alimentados. Inicialmente, eles fizeram experimentos in vivo, com os animais inteiros, e constataram uma diminuição no consumo de oxigênio, principalmente quando estavam em privação de bactérias. “A gente viu que a quantidade de oxigênio consumida por esses animais, mesmo respirando menos, era mais voltada à síntese de ATP. São fatos que já foram vistos em outros organismos mais complexos e em C. elegans também, a gente corroborou a literatura”, disse a pesquisadora.

Em seguida, estudaram mitocôndrias isoladas, nas quais se podem usar moduladores químicos da atividade mitocondrial. Para medir a atividade mitocondrial, os pesquisadores monitoram o consumo de oxigênio e usam inibidores da cadeia de transporte de elétrons e da fosforilação oxidativa.

Isolar as mitocôndrias de um bichinho tão pequeno como o C. elegans não é trivial. O C. elegans tem cerca de 1 milímetro de comprimento, não é patogênico e vive no solo, alimentando-se de micróbios como bactérias. Para isolar suas mitocôndrias, foi necessário cultivar um milhão de animais de cada grupo experimental, trabalhando com condições de cultivo extremas, como placas muito grandes e muitos animais por placa.

Com os experimentos, eles viram que tanto os animais selvagens submetidos à privação de bactéria quanto os animais que não tinham a linhagem germinativa, mas que estavam comendo, tinham maior habilidade para oxidar lipídios. Eles respiravam mais na presença do substrato lipídico e também eram mais eficientes para produzir ATP a partir da energia liberada pela oxidação de lipídios.

Em muitos organismos, incluindo o C. elegans, os lipídios formam os principais estoques de energia e são rapidamente mobilizados e oxidados durante a fome. “Era esperado que o bicho que não come melhorasse o metabolismo de lipídios para geração de ATP, mas aconteceu o mesmo com o mutante glp1 mantido na presença de comida. Se fosse só um estímulo dependente da privação de alimento, a gente não veria isso no mutante alimentado. E a gente vê”, afirmou a pesquisadora. Com isso, o estudo demonstrou que a infertilidade induz uma alteração funcional no metabolismo mitocondrial para aumentar o uso eficiente de lipídios como combustível energético. E, embora tanto a restrição alimentar quanto a inibição reprodutiva individualmente aumentem a eficiência da respiração baseada em lipídios e do acoplamento mitocondrial, elas são ainda mais eficazes em combinação.

O estudo foi feito em colaboração com os grupos de Alicia Kowaltowski, do Instituto de Química da USP e do CEPID Redoxoma, e Hugo Aguilaniu, do Institut de Génomique Fonctionnelle de Lyon, na França, e do Instituto Serrapilheira.

O próximo passo, segundo a pesquisadora, será estudar mitocôndrias isoladas de C. elegans do tipo selvagem alimentados e em privação alimentar por meio de análises de proteômica (análise global das proteínas de uma amostra biológica), e de lipidômica (análise global dos lipídios em sistemas biológicos).

Repertório Lipídico

O grupo de Fernanda Cunha já tem experiência com lipidômica. Em outro estudo, publicado recentemente no BBA - Molecular and Cell Biology of Lipids, os pesquisadores caracterizaram o perfil lipídico de C. elegans mutantes deficientes para a lipase LIPL-5 e compararam com o perfil de vermes do tipo selvagem. Eles encontraram grandes alterações nos lipídios mitocondriais dos mutantes, que foram acompanhadas por mudanças significativas na atividade mitocondrial. As lipases são enzimas que têm como função quebrar a gordura presente nos alimentos.

“Os mutantes LIPL-5, quando privados de alimentação, têm o tempo de vida aumentado em relação a animais do tipo selvagem nas mesmas condições. A LIPL-5, por homologia, foi classificada como uma lipase, mas até hoje não se sabe qual seu substrato nem quais são seus produtos”, afirmou Fernanda Cunha. Isso fez com que os pesquisadores decidissem descobrir o que a falta dessa enzima provocava no repertório de lipídios e na atividade mitocondrial do C. elegans. Eles viram que, em animais alimentados, as mitocôndrias dos mutantes eram mais eficientes do que as dos vermes selvagens, mas a restrição alimentar provocou mudanças na atividade mitocondrial apenas nos vermes do tipo selvagem.

A análise lipidômica dos animais mostrou 409 diferentes espécies lipídicas, das quais 38 espécies foram moduladas diferentemente nos mutantes privados de alimentação. As principais alterações foram relacionadas ao pool de ceramidas, aos ácidos graxos livres, à coenzima Q-9 e às cardiolipinas, sendo as duas últimas específicas da membrana mitocondrial interna. A coenzima Q-9 tem papel no transporte de elétrons na cadeia respiratória mitocondrial, enquanto as cardiolipinas são cruciais para as funções mitocondriais e estão envolvidas na estabilização de complexos e supercomplexos respiratórios, em mitofagia e em sinalização.

Os resultados lipidômicos indicaram que a falta da LIPL-5 provoca alterações importantes nos lipídios mitocondriais, e, portanto, que esta enzima é determinante para alterações da atividade mitocondrial em resposta à privação de alimentos. Os estudos de lipidômica e as análises estatísticas foram feitas em colaboração com os grupos da professora Sayuri Miyamoto, do Instituto de Química da USP, e Isaias Glezer, da UNIFESP, ambos do CEPID Redoxoma.

Segundo os pesquisadores, no genoma do C. elegans há 471 genes que codificam proteínas envolvidas no metabolismo lipídico e 70% deles têm um homólogo humano. Os lipídios possuem funções de sinalização e participam do controle do metabolismo na saúde e em doenças, além de terem papel no armazenamento de energia, por isso o metabolismo lipídico é uma área de pesquisa importante. “Apesar do número cada vez maior de trabalhos publicados sobre o tema, o repertório lipídico de diferentes organismos, suas funções biológicas e sua remodelação específica em resposta a diferentes estímulos estão longe de ser completamente caracterizadas”, escreveram os autores do artigo.

O artigo Lifespan-Extending Interventions Enhance Lipid-Supported Mitochondrial Respiration in Caenorhabditis elegans, de Felipe Macedo, Talita Romanatto, Carolina Gomes de Assis, Alexia Buis, Alicia J. Kowaltowski, Hugo Aguilaniu e Fernanda Marques da Cunha, pode ser lido aqui.

O artigo Lipase-like 5 enzyme controls mitochondrial activity in response to starvation in Caenorhabditis elegans, de Felipe Macedo, Gabriel Loureiro Martins, Luis A. Luévano-Martínez, Gustavo Monteiro Viana, Karin A. Riske, Alex Inague, Marcos Y. Yoshinaga, Hugo Aguilaniu, Sayuri Miyamoto, Isaias Glezer e Fernanda Marques da Cunha, pode ser lido aqui.


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